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6 de maio de 2016

Carta de Santarém



No dia 21 de agosto de 2015, no município de Santarém/PA, berço dos estudos referenciais do Manejo de Florestas Nativas da Amazônia Brasileira, reuniram-se engenheiros florestais: representantes da Sociedade Brasileira de Engenheiros Florestais; da Associação Profissional dos Engenheiros Florestais do Estado do Pará; da Associação Profissional dos Engenheiros Florestais do Oeste do Pará; da Associação Mato-grossense de Engenheiros Florestais; da Associação de Engenheiros Florestais do Amapá; da Associação de Engenheiros Florestais do Estado do Acre; da Associação de Engenheiros Florestais do Estado de Roraima; da Associação Profissional dos Engenheiros Florestais do Amazonas; da Associação de Engenheiros Florestais do Distrito Federal; da Associação Sul Mato-Grossense de Engenheiros Florestais; da Associação Pernambucana de Engenheiros Florestais; da Associação Rondoniense de Engenheiros Florestais; Associação Metropolitana de Engenheiros Florestais; decanos e pesquisadores da temática florestal.
Ao analisar a realidade, dificuldades, desafios e tendências do setor florestal apontam, em caráter de urgência, a necessidade de discutir e revisar os mecanismos legais que regulamentam e regram as atividades, com destaques para as resoluções, instruções normativas, portarias e demais sistemas de controle e cadastro das atividades de interface florestal.
Destacou-se:
1) As politicas públicas nacionais para o setor florestal não tem demonstrado efetividade causando o descrédito e desincentivo para a produção florestal e manutenção das florestas em pé;
2) A fragilização e fragmentação das instituições públicas envolvidas com: a promoção florestal; gestão das florestas públicas; licenciamento e controle das atividades florestais resultam em mecanismos de pouca efetividade que implicam em burocratização aos usuários e interessados dos recursos florestais, criando insegurança econômica e jurídica nas diferentes modalidades de projetos e atividades florestais;
3) A regulamentação dos mecanismos legais através de instruções normativas, portarias, resoluções e outros instrumentos reguladores sem a participação efetiva dos profissionais de engenharia florestal, bem como usuários dos recursos florestais, implicam na não observação de aspectos operacionais e dificuldades no cumprimento dos dispositivos propostos;
4) A construção dos procedimentos de regulamentação tem seguido uma linha unilateral, norteada apenas pela facilitação das ações de comando e controle, em detrimento da lógica operacional produtiva e da ciência florestal, resultando em prejuízos na aplicabilidade de técnicas e em maiores custos econômicos e ambientais;
5) A fixação de parâmetros em sistemas padronizados limita o livre exercício profissional e aplicação da ciência e tecnologia florestal;
6) A insegurança jurídica florestal aliada à ausência de incentivos fiscais, creditícios e de fomento para a cadeia produtiva florestal tem contribuído para a inércia do setor, seja nas atividades de reflorestamento, de manejo florestal e da indústria de base florestal, com consequências socioeconômicas e evidente declínio de investimentos e no nível de atividade;
7) Diversos mecanismos de controle, monitoramento e fiscalização, especialmente os de caráter proibitivos, desamparados de critérios técnicos e científicos, acabam colocando em risco espécies e biomas.

6 de junho de 2011

100 Engenheiros Florestais formados no Acre

* Ecio Rodrigues
O próximo Engenheiro Florestal que se formar no Acre será o centésimo. Uma importante marca que representa o esforço de um número variado de profissionais e instituições que acreditaram, ainda em 2010, na criação de um curso voltado à formação de um tipo específico de profissional, para atuar com a maior riqueza acriana: sua floresta.
Ocorre que nos últimos 20 anos o Acre passou por profundas transformações. Em nenhum momento de sua história recente se investiu o atual volume de recursos financeiros para construção de infra-estrutura de apoio ao seu desenvolvimento. No entanto, é a valorização do ecossistema florestal, como indutor do processo de desenvolvimento, o que definirá o Acre do futuro.
Todavia, valorizar o ecossistema florestal, de forma a promover a geração de emprego e renda superiores àquelas advindas de atividades produtivas que dependem do desmatamento, requer muita criatividade, vontade política, clareza de propósitos e, claro, engenheiros florestais.
A boa notícia é que um longo caminho já foi percorrido para que a floresta tenha maior valor que seu desmatamento. Afinal, uma guinada sem precedentes nessa transformação produtiva foi realizada, ainda no decorrer da década de 1990, quando um conjunto de técnicos (em sua maioria engenheiros florestais) e de lideranças sindicais expressivas como Chico Mendes conceberam um novo tipo de Unidade de Conservação que chamaram de Reservas Extrativistas.
Essas áreas, que na atualidade compreendem um quantitativo expressivo de mais de 2,5 milhões de hectares, são instituídas pelo poder público, desapropriadas e entregues às comunidades de extrativistas residentes para que se apliquem ali, modelos de exploração florestal que sejam compatíveis com a capacidade de regeneração do ecossistema. Princípio elementar da tecnologia do Manejo Florestal.
Mais importante ainda é que nessas áreas a única, legalmente a única, maneira de se gerar trabalho e renda é através de atividades produtivas vinculadas à floresta. Isto é, em nenhuma hipótese, e por força da Lei, se aceitará práticas agropecuárias com fins comerciais. Não se pode comercializar a produção agrícola e pecuária, pois essas práticas são aceitas somente para subsistência.
Outra guinada expressiva para uma transformação produtiva, em direção à consolidação de uma economia florestal aconteceu com a concepção e aplicação, em escala experimental, da tecnologia do Manejo Florestal Comunitário. Novamente, uma contribuição genuinamente acriana, tendo em vista que os projetos pioneiros de manejo florestal comunitário tiveram origem no Acre.
Finalmente o acúmulo intelectual no setor florestal acriano teria um novo desafio. Com uma demanda crescente a produção comunitária de madeira foi, paulatinamente, sendo diversificada com a introdução da copaíba, do açaí, do murmuru, do cipó unha-de-gato, das sementes florestais e da fauna silvestre. Uma diversificação que exigiria dos engenheiros florestais conceber a tecnologia que abarcasse todo leque de produtos.
A essa tecnologia deu-se a denominação de Manejo Florestal de Uso Múltiplo, cujo conceito, grosso modo, pode ser esmiuçado como a possibilidade de agregar em uma unidade produtiva toda matéria-prima, produto e serviço oriundo da diversidade biológica do ecossistema florestal e que seja passível de ser manejado.
Com essa expressiva acumulação teórica em ciência florestal no Acre a demanda por profissionais com formação de nível superior é cada vez mais elevada. Uma demanda, do tamanho da biodiversidade do ecossistema florestal da Amazônia. 
O que significa que os 100 Engenheiros Florestais do Acre, sempre têm muito trabalho pela frente.

* Professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Engenheiro Florestal, Especialista em Manejo Florestal e Mestre em Economia e Política Florestal pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília (UnB).

22 de novembro de 2010

Raimundo, um Mateiro

* Ecio Rodrigues
Vitimado por uma grave enfermidade faleceu, semana passada, Raimundo Saraiva um dos pioneiros na profissão de Mateiro no Acre. Talvez um dos poucos que além de um dom natural para identificação de árvores no interior da floresta, também possuía disciplina e capacidade de concentração, como as que são exigidas aos estudiosos da biodiversidade amazônica.
Envolvido na equipe que participou de um momento único da história da pesquisa em ciência florestal na Amazônia, quando ainda no final da década de 1980, a Fundação de Tecnologia do Estado do Acre, Funtac, a Embrapa e o Centro dos Trabalhadores da Amazônia, CTA, iniciavam a elaboração de formulações teóricas inovadoras como as das Reservas Extrativistas, do Manejo Florestal Comunitário e do Manejo Florestal de Uso Múltiplo, Raimundo era o Mateiro preferido que nunca se negava a contribuir.
Ocorre que o Mateiro é para o engenheiro florestal, o biólogo e outros profissionais que se aventuram no estudo da floresta amazônica, sua principal fonte de informação e de conhecimento, sobre a identidade das espécies. Ou seja, é o Mateiro que conhece as árvores, os arbustos e as ervas, pelo seu nome e, sem essa informação, não se faz nada na floresta.
Os técnicos que trabalharam com Raimundo vão sentir muita saudade do amigo e falta da referência técnica que ele representava. Referencia técnica daquelas que fornece segurança sobre a informação que trazia. A pergunta, para saber se um Inventário Florestal, realizado no Acre nesse período, tinha dados seguros ou não, era sempre a mesma: Foi o Raimundo o identificador botânico das árvores?
Por sinal, ser identificador botânico, que é aquele Mateiro que sabe o nome popular da árvore, mas que, após qualificação, consegue identificar a espécie e chegar ao seu nome científico, algo bem complexo de se fazer, foi uma atitude determinada do Raimundo.
Ainda no tempo da Funtac ele se propôs a, em conjunto com outro saudoso Mateiro: Ivo Flores, a permanecer durante mais de 3 meses no herbário do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Inpa, aprendendo a reconhecer as árvores pelo seu nome científico, se transformando em um dos primeiros identificadores botânicos da Amazônia.
Raimundo fez sua estréia no primeiro Inventário Florestal realizado na Floresta Estadual do Antimary, em 1989 e coordenado pelo Chico Cavalcante, que não cansava de dizer que o Raimundo era único. Esse Inventário Florestal, considerado especial por ter incluído, pela primeira vez, as palmeiras, os arbustos e cipós na quantificação da floresta, exigiu muito do Mateiro, mas Raimundo deu conta do recado.
Depois vieram os Inventários Florestais do São Luis do Remanso, do Cachoeira, do Porto Dias, do Macauã e assim por diante. Raimundo tornou-se referencia, aquela crucial garantia de que a informação elementar, da qual tudo depende, o nome da árvore, estava correta.
A profissão de Mateiro, que infelizmente continua negligenciada por aqueles que são responsáveis pela formação de profissionais para o setor florestal na Amazônia, perdeu um dos seus mais respeitáveis profissionais.
Com o Raimundo foi-se um vasto banco de dados sobre a flora amazônica, algo irrecuperável e para o qual costuma-se não dar atenção. Não há um discípulo sequer, não haverá continuidade, a perda é enorme. 
Ao Raimundo só resta agradecer pelos momentos vividos no interior da floresta, pela atenção, pela companhia, pelo profissionalismo e por tudo o mais.
Que o Raimundo esteja conversando com as árvores por aí, para saber seu nome e de onde vieram. E, depois, seria bom, se conseguisse um jeito de nos contar. 
* Professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Engenheiro Florestal, Especialista em Manejo Florestal e Mestre em Economia e Política Florestal pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília (UnB).
Nota do blog: A AEFEA faz suas a palavras dos companheiros que prestam homenagem ao Sr. Raimundo, o seu legado está escrito para sempre nos trabalhos desenvolvidos com sua inestimável colaboração.

29 de agosto de 2010

O impacto do manejo florestal sobre a fauna silvestre

Patrícia Drumond
Bióloga, D.Sc. Biologia de Animais Silvestres
Embrapa - Acre.

Recentemente, a Assembléia Legislativa do Estado do Acre aprovou uma matéria restringindo o corte, em escala industrial, de 24 espécies de árvores nativas, por fazerem parte da dieta de muitos animais. Apesar de ser uma iniciativa interessante, não é ainda possível estimar os efeitos dessa medida, em decorrência do reduzido número de estudos sobre o tema. Não se sabe, por exemplo, o que ocorre com a maioria dos animais quando parte de seu alimento torna-se indisponível. Eles são “obrigados” a se deslocarem para áreas maiores a fim de obtê-lo ou são capazes de compensar esta retirada, consumindo alimentos de outras fontes? Esta alteração no comportamento alimentar envolve também mudanças na reprodução? Pode haver, por exemplo, diminuição do número de filhotes por fêmea?

Apesar das dúvidas, há, certamente, outras ações que podem ser implementadas no sentido de conservar a fauna silvestre em áreas sob manejo florestal madeireiro e não-madeireiro.

Pelo fato dos animais atuarem em processos ecológicos complexos como dispersão de sementes e polinização, toda e qualquer atividade de manejo florestal deve envolver a realização de inventários a intervalos regulares. Os animais mais visados pelos caçadores, como anta, veado-capoeiro, porquinho-do-mato, queixada, entre outros, necessitam de monitoramento a longo prazo, o que pode ser realizado com emprego de técnicas simples, conduzidas pela comunidade ou pelos funcionários das indústrias. Deve-se pensar, também, na contratação de especialistas: em princípio, quanto maior o detalhamento dos estudos realizados, maior a consistência das informações geradas.

Outro fato indiscutível é a estreita associação entre uso de produtos florestais e pressão de caça. Com a valoração dos produtos florestais madeireiros e não-madeireiros, observa-se um aumento no tempo de permanência dos manejadores na floresta. Quanto maior este tempo, maiores são as oportunidades de caça e, conseqüentemente, maior a quantidade e diversidade de animais abatidos. Neste contexto, torna-se imprescindível a elaboração de planos de caça nas áreas sob manejo florestal, os quais podem tomar como base as experiências realizadas em algumas terras indígenas e em projetos de assentamento no Estado do Acre. Estas experiências, embora relativamente recentes, já registram resultados positivos, pois os caçadores passaram a reconhecer os prejuízos causados pela caça indiscriminada, em particular, aquela realizada com cachorro. Nestas áreas, os moradores locais entenderam melhor a necessidade de trabalhar em parceria com os órgãos fiscalizadores e a importância de obter proteína animal de outras fontes, como, por exemplo, de pequenos animais domésticos e de animais silvestres criados em cativeiro.

Por ser um tema tão polêmico, somente a existência de fóruns permanentes de discussão, envolvendo atores de diversos segmentos da sociedade, possibilitará a obtenção de soluções realistas, de baixo custo e sustentáveis.

Nos trabalhos realizados pela Embrapa Acre, em parceria com a Funtac, Sebrae/AC, Ufac, setor privado e comunidades locais, não foi possível estimar o impacto do manejo florestal sobre a fauna silvestre, uma vez que queimadas, caça, formação de pastagens e investimentos em infra-estrutura foram registrados nas áreas estudadas. Todavia, apesar deste ambiente hostil (do ponto de vista da fauna silvestre), foram avistadas espécies raras (como o cachorro-do-mato), com distribuição geográfica restrita (sagüi-de-bigode) ou ameaçadas de extinção (guariba, tamanduá-bandeira, tatu-canastra e onça). Um aspecto preocupante foi o reduzido número de indivíduos visualizados nestes estudos. Mesmo os pequenos roedores, descritos na literatura como animais de fácil visualização, pouco visados pelos caçadores e tolerantes às alterações do meio, foram registrados em pequeno número. Estes dados ressaltam um outro aspecto que necessita de especial atenção: enquanto não existirem informações em quantidade e qualidade suficientes para avaliar o impacto da utilização dos recursos naturais sobre a fauna silvestre, faz-se necessário o estabelecimento de grandes áreas de proteção integral, sem qualquer atividade humana... um assunto delicadíssimo, que, certamente, requer a elaboração de outro artigo.

Informações:

Patrícia Drumond
Embrapa-Ac
(68)3212-3200

18 de agosto de 2010

Engenharia e arquitetura poderão ser carreiras típicas de Estado

Agência Câmara

A Câmara analisa o Projeto de Lei 7607/10, do deputado José Chaves (PTB-PE), que enquadra as atividades de engenheiros, arquitetos e agrônomos nas carreiras consideradas exclusivas de Estado. O texto altera a Lei 5.914/66, que regula o exercício dessas profissões.

Para o autor, em todas as atividades da economia nacional é insubstituível a presença desses profissionais. “A participação deles tem mudado a feição do País, ao planejar e executar as mais importantes obras de transformação das cidades, no campo da hidroeletricidade e na interiorização do progresso”, afirma.

As carreiras típicas de Estado foram previstas pela Emenda Constitucional 19, de 1998, conhecida como reforma administrativa. Nelas, estão incluídos atualmente diplomatas e servidores de carreiras jurídicas, de auditoria e de gestão governamental, entre outras. Os profissionais dessas carreiras têm direito a garantias especiais contra a perda dos seus cargos, se forem servidores públicos estáveis.

Tramitação

O projeto tramita em caráter conclusivo e será examinado pelas comissões de Trabalho, de Administração e Serviço Público; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Íntegra da proposta:


Reportagem – Oscar Telles
Edição – Ralph Machado

15 de agosto de 2010

Sucessão e fazer escola

Luiz Ernesto George Barrichelo
Diretor Executivo do IPEF - Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais
Revista Opiniões - Março-Maio 2010

Certa ocasião, após minha aposentadoria, fui questionado sobre a maior satisfação colhida na minha carreira de professor e pesquisador. Sem titubear, respondi que tinha sido o sentimento da contribuição deixada para o Setor Florestal Brasileiro através dos ex-orientados, hoje respeitáveis profissionais nas áreas de P&D e nas áreas operacionais e administrativas de inúmeras empresas de celulose e papel. A bem da verdade, acredito que essa sensação deve ser sentida por outros colegas e amigos, tanto no meio acadêmico como empresarial de nosso País, que passaram por essa experiência. Entendemos que o processo de formação e treinamento de pessoas pode estar ligado, de um lado, a um plano de carreira ou, de outro lado, com o fazer escola.

No primeiro caso, o plano de sucessão, nos dias de hoje, pode ser entendido como imprescindível à sobrevivência das empresas, ou seja, um planejamento estratégico de recursos humanos. Por outro lado, uma garantia de que a empresa continue inovadora e competitiva.

Alguns estudiosos do assunto afirmam que esse tipo programado de sucessão, em última análise, é uma “reinvenção da empresa”. O processo em si não é tão simples, primeiro pela diversidade de situações e tipos de empresas. As saídas mais usuais têm sido a escolha entre diferentes candidatos, indicação de um sucessor familiar ligado ou não ao sócio majoritário ou criação de um conselho de administração, no qual o líder que se afasta mantém algum tipo de controle e supervisão.

Quando a expectativa é de que a sucessão ocorra graças ao planejamento do executivo que deverá deixar o cargo, por promoção ou troca de empresa, parte das vezes ela se frustra por individualismo, receio de concorrência, falta de compromisso com o futuro ou falta de profissionalismo.

Os mais conscientes montam uma equipe que dialoga sobre as normas e procedimentos da empresa, colaboram com a sua divulgação ampla e irrestrita e compartilham todo o conhecimento gerado. Dessa maneira, a preocupação com a sucessão deve estar ligada à atividade diária do executivo e não somente quando cobrado pela alta direção da empresa. Inclusive porque se foi o tempo da percepção enganosa de que se é insubstituível.

Da mesma forma, é importante não se prender a um único possível sucessor (mais tempo de cargo ou conhecimento técnico), pois os fatores ligados à liderança são fundamentais. Como consequência, o grande segredo é dar espaço a todos os eventuais candidatos, pois, do embate interpares, é possível avaliá-los em diferentes situações além do dia a dia de cada um. O fazer escola tem um sentido mais amplo que a sucessão anteriormente exposta.

Seu aporte é mais filosófico, chegando a questionar e a alterar, construtivamente, a visão e mesmo a missão de dada empresa ou entidade. Filosófica porque traz novas maneiras de encarar desafios e ampliar horizontes. Obviamente, essa situação se aplica ao setor empresarial, porém, com mais frequência, ocorre no meio acadêmico e de P&D. Nessas condições, são maiores as oportunidades para o exercício da criatividade e da liderança situacional.

Obviamente também, o ambiente de trabalho é mais informal, e a hierarquia é respeitada não como uma obrigação, sobrevivência ou segundo as normas vigentes, mas como respeito e reconhecimento.

O sentido de equipe tem que ser despertado e constantemente realimentado, dada a natural rotatividade que ocorre. Um ponto a não ser perdido de vista é que essa ação, na maioria das vezes, ocorre envolvendo voluntários, como estagiários, bolsistas e similares. Apesar de possível retribuição financeira, não há um esquema rígido de trabalho, e a carga horária é compartilhada com outras atividades, talvez mais prioritárias, como escolares.

Dessa maneira, a maior ou menor dedicação será resultado da motivação para o trabalho no presente e relacionadas perspectivas profissionais para o futuro. Numa situação especial como essa, minha experiência acadêmica e pessoal permite a conclusão de que o sucesso do trabalho em equipe como garantia do “fazer escola” e formar sucessores se baseia em três palavras: fé, dedicação e entusiasmo. Fé: confunde-se com crença, esperança, desejo, ideal, sonho e outros sentimentos inerentes ao ser humano.

Dedicação: confunde-se com determinação, esforço, garra e outros sentimentos não tão difundidos nos dias atuais. Entusiasmo: confunde-se com vibração, euforia, júbilo, ardor, paixão e outros sentimentos inatos a muitos ou adquiridos, mercê de uma decisão ou propósito pessoal.

12 de agosto de 2010

10 anos de Engenharia Florestal no Acre, 50 no Brasil

* Ecio Rodrigues

Dia 12 de julho próximo os Engenheiros Florestais comemoram seu dia. Um dia especial, em um ano igualmente especial, quando o primeiro curso de Engenharia Florestal do país iniciava suas atividades há 50 anos, em 1960. Um ano mais especial ainda para os acreanos que há 10 anos iniciavam a formação de sua primeira turma de Engenheiros Florestais na UFAC.

Motivos para comemorar não faltam. Afinal, os silvicultores brasileiros são reconhecidos mundo afora por sua excelência na condução de povoamentos florestais, sobretudo aqueles destinados à produção de papel e celulose. Os Engenheiros Florestais contribuíram de forma sensível, para que o Brasil se tornasse o quinto maior produtor de madeira de florestas plantadas do mundo.

Aproveitando as condições climáticas favoráveis, existentes em quase todo território nacional, os Engenheiros Florestais ajudaram a desenvolver variedades e clones de espécies como eucaliptus e pinus, com índices de produtividade superiores à média internacional.

Na Amazônia não foi diferente. Após o apoio da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, FAO, que ainda na década de 1950 trouxe para região um primeiro grupo de Engenheiros Florestais, alemães e americanos, uma ciência florestal para o ecossistema amazônico vem sendo estruturada em bases sólidas.

Os Engenheiros Florestais amazônidas talvez sejam os únicos dentre todos os outros países amazônicos, a conceber e colocar em prática o que se chamou de Sistema Silvicultural para Amazônia, o que tornou viável, do ponto de vista ecológico, técnico e econômico, a exploração de madeira tropical dura, na várzea e em terra firme, sob a tecnologia do Manejo Florestal.

Os Engenheiros Florestais que atuam na Amazônia sabem como fazer para derrubar uma árvore, arrastar, transportar, serrar e secar a madeira que vai atender a demanda da sociedade por carteiras escolares e móveis domésticos, por exemplo.

Para se chegar nesse nível de tecnologia, na produção de madeira de elevada qualidade foi preciso muito estudo e muita criatividade desses profissionais, que, por sinal, estão mais que acostumados a desafios. São profissionais que atuam com a exploração de florestas amazônicas, tema que toda pessoa, sem exceção e independente da formação, gosta de discutir.

Mas, é bem provável que tenha sido do pequeno e singular Acre que surgiram as novidades tecnológicas mais recentes e mais importantes para renovação da ciência florestal na Amazônia.

A contribuição efetiva dos profissionais da Engenharia Florestal que atuam no Acre surgiu para solução de dois problemas cruciais. O primeiro relacionado à obtenção e estruturação de áreas florestais destinadas ao extrativismo florestal. A concepção das, atualmente reconhecidas em todo país, Reservas Extrativistas contou a participação essencial de um grupo de Engenheiros Florestais acreanos.

Se a criação de Reservas Extrativistas requereu esforço de política florestal, o segundo problema iria requerer maior empenho técnico no campo do manejo florestal. Tratava-se então de desenvolver um conjunto de procedimentos, para fazer com que o extrativismo se elevasse, do ponto de vista técnico, ao manejo florestal.

Com a tecnologia do Manejo Florestal Comunitário para produção de madeira os extrativistas se transformaram em, no que eles mesmos chamam, Manejadores Florestais.

A partir daí se chegou à inovação tecnológica do Manejo Florestal de Uso Múltiplo, um passo definitivo para a ciência florestal amazônica, pois permitirá a oferta de mais de 40 produtos de uma mesma colocação, incluindo os serviços ambientais de seqüestro de carbono e produção de água.

Finalmente, parece que, mais que solucionar problemas relacionados à produção florestal amazônica, os Engenheiros Florestais acreanos estão escrevendo uma nova história. O futuro dirá.

* Professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Engenheiro Florestal, Especialista em Manejo Florestal e Mestre em Economia e Política Florestal pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília (UnB)."